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asci quando já só faltavam cento e quarenta e quatro dias para o ano terminar e quando já tinham sido passados duzentos e vinte e um dias do ano de mil novecentos e vinte e três ter começado. No dia nove de Agosto de mil novecentos e vinte e três durante as férias da minha família na Vila Edith, em Benfica, nasci, no seio de uma família repleta de mulheres, três irmãs, a minha mãe e o único homem até então, meu pai. Estive a reflectir e para entenderem o percurso da minha vida tenho de vos falar das características do meu pai, natural de Tondela, Viriato de Vasconcelos, um ourives (com oficina e loja na rua da Palma, baixa lisboeta) … e com o mesmo sonho para mim! Este senhor tinha uma personalidade dominadora e pragmática como se irão aperceber mais à frente.
Ora bem, comecei a estudar por onde todas as crianças começam, a escola primária. Depois de por aí ter passado fui para o liceu Gil Vicente onde subi durante um ano aquela escadaria principal, olhava para o céu e entrava. Hoje algum companheiro me diria: “entrada à artista”! Mas não durei muito ali, o meu pai transferiu-me para a Escola de Artes Decorativas António Arroio, um curso de cinzelagem porque queria que eu fosse ourives! Naquele tempo conheci Artur Cruzeiro Seixas e Fernando José Francisco, companheiros do Grupo Surrealista de Lisboa e mais tarde ao grupo “Os Surrealistas”. Artur Cruzeiro Seixas, tal como eu, optou pela homossexualidade e uma vez criou esta expressão que eu nunca esquecerei: “homossexualidade é a arma mais terrível contra tudo o que havia à minha volta e com que eu não estava de acordo - chamasse-se ou não fascismo. Era uma atitude de revolta”, era uma boa maneira de escandalizar e provocar a sociedade portuguesa que era na altura conservadora e religiosa, não duvidem! Este Artur Cruzeiro Seixas, oh sim, um grande amigo e companheiro! Mas tudo isto se passou mais tarde…
Eu não me deixei ficar como ourives queria aprender, então contrariando os ideais do meu pai, frequentei um curso de habilitação às Belas-Artes. Mas felizmente não foi só, Fernando Lopes-Graça um grande compositor e para alguns um dos maiores do século em que mais vivi, o século XX, ensinou-me sem pedir nada em troca os seus dotes do piano, conheci os sons! Infelizmente estes meus momentos de pianista foram deixados para trás pois, novamente, o meu pai proibiu-me de recolher mais sabedoria deste grande mestre.
No final da minha adolescência partilhei bons momentos com os meus amigos nos cafés de Lisboa, partilhando várias tertúlias e onde conheci o neo-realismo que não era nada mais nada menos que uma corrente artística onde tínhamos de tornar a verdade uma ficção para escaparmos da censura. Ainda nesta época da minha vida descobri o surrealismo! Um outro movimento artístico e literário, embora o neo-realismo incluísse outras áreas como o cinema. Depois destes bons anos, mais concretamente em mil novecentos e quarenta e sete, tinha eu vinte e quatro anos quando me dirigi à capital francesa, Paris, onde prossegui os meus estudos no número catorze na rua de la Grande Chaumière, Académie de la Grande Chaumière. Esta academia tinha uma grande reputação! Foi tanta a cultura que conquistei em Paris! O movimento surrealista francês entusiasmou-me de tal maneira que o quis levar para Portugal e foi nesta altura que criei o Grupo Surrealista de Lisboa com jovens companheiros como António Pedro, José Augusto França, Cândido Costa Pinto, Vespeira, Moniz Pereira e também Alexandre O´Neill. E foi assim que me afastei do movimento neo-realismo, trocando-o! As pessoas sempre me consideraram uma figura inquieta e questionadora, bem, na verdade sempre tiveram razão! Mudei de movimento num ápice, sem “olhar para trás”. Não foi totalmente verdade, escrevi “Nicolau Cansado Escritor”, repleto de ironia. Por um lado toda esta troca de movimentos fez despertar em mim um desejo de conhecer, experimentar! Desejo este que se foi reflectindo nas minhas obras, tais como colagens e pinturas. Utilizei processos como pinturas com tinta de água, e sabem? A precisão não foi para mim… Quando pintava aleatoriamente sentia que conseguia libertar melhor as minhas emoções! Que é, para mim, a maior finalidade da arte, podermos mostrar o que pensamos de uma maneira original. Também a poesia foi uma ocupação na minha vida. O que esteve na base de todas as minhas obras foi o desejo de conhecer sempre mais. Tenho de admitir, quando me iniciei tinha uma alma jovem e muita vontade, nem sempre consegui que esta minha jovem vontade fosse bem sucedida. No entanto, nunca baixei os braços…!
Durante a minha vida fui publicando periodicamente no Jornal de Letras e Artes e Cadernos do Meio-Dia entre outros. Sempre a pensar nos movimentos! Mais tarde devido à maneira como tratavam o surrealismo, uma maneira não autêntica, eu saí do até então meu grupo e criei O Grupo Surrealista Dissidente com Pedro Oom e António Maria Lisboa!
Esta mudança de grupo foi uma prova do meu espírito crítico, como alguns classificam as minhas obras. Sempre critiquei os detratores do surrealismo e também os que, na prática literária, o desvirtuavam. Como disse, era um crítico, porque como artista reflectia no que observava e daí nasceu Corpo Visível e Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano, sempre fui ironizando a realidade que observava diariamente. Fui criando arte reflectindo sempre na actualidade, pelo menos, na actualidade daqueles dias!
Na década 1940 o meu pai trocou a minha família por uma amante no Brasil. A partir desse acontecimento da minha vida, aproximei-me mais da minha mãe e de Henriette, a minha irmã mais velha.
E, quando não haviam facilidades na minha vida, a polícia atormentava-me e também me perseguia devido à minha homossexualidade. Envergonharam-me sem qualquer respeito! Porém, o vinte e cinco de Abril trouxe-me paz… Relativamente à polícia. O que escrevia não me sustentava e foi a minha família que me ajudou naqueles tempos difíceis até que em mil novecentos e sessenta decidi que a pintura iria ser a minha única via de rendimento. Vinte anos mais tarde, Manuel Hermínio Monteiro reeditou as minhas obras que tinha sido previamente editadas por Luiz Pacheco, de quem saudade não guardo! As minhas obras ganharam um outro público.
O fim aproximava-se, tinha sido diagnosticado com cancro da próstata e uns anos antes de morrer morei com a minha irmã mais velha, a qual ainda vi falecer, em mil novecentos e noventa e quatro.
Nos últimos anos da minha vida recebi o Grande Prémio EDP de Artes Plásticas 2002 e mais tarde em dois mil e cinco recebi a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade que foi entregue por Jorge Sampaio; neste mesmo ano fui galardoado com o Grande Prémio da Vida Literária homenageando a minha contribuição para a literatura portuguesa.
Às dezassete e trinta, do tricentésimo trigésimo dia do décimo primeiro mês do ano de dois mil e seis, faleci! Após anos a tentar vencer o cancro… No meu testamento disse que queria doar um milhão de euros à Casa Pia e em vida doei o meu espólio à Fundação Cupertino de Miranda.