sábado, 23 de julho de 2011

Eu, Mário Cesariny de Vasconcelos


N
asci quando já só faltavam cento e quarenta e quatro dias para o ano terminar e quando já tinham sido passados duzentos e vinte e um dias do ano de mil novecentos e vinte e três ter começado. No dia nove de Agosto de mil novecentos e vinte e três durante as férias da minha família na Vila Edith, em Benfica, nasci, no seio de uma família repleta de mulheres, três irmãs, a minha mãe e o único homem até então, meu pai. Estive a reflectir e para entenderem o percurso da minha vida tenho de vos falar das características do meu pai, natural de Tondela, Viriato de Vasconcelos, um ourives (com oficina e loja na rua da Palma, baixa lisboeta) … e com o mesmo sonho para mim! Este senhor tinha uma personalidade dominadora e pragmática como se irão aperceber mais à frente.
            Ora bem, comecei a estudar por onde todas as crianças começam, a escola primária. Depois de por aí ter passado fui para o liceu Gil Vicente onde subi durante um ano aquela escadaria principal, olhava para o céu e entrava. Hoje algum companheiro me diria: “entrada à artista”! Mas não durei muito ali, o meu pai transferiu-me para a Escola de Artes Decorativas António Arroio, um curso de cinzelagem porque queria que eu fosse ourives! Naquele tempo conheci Artur Cruzeiro Seixas e Fernando José Francisco, companheiros do Grupo Surrealista de Lisboa e mais tarde ao grupo “Os Surrealistas”. Artur Cruzeiro Seixas, tal como eu, optou pela homossexualidade e uma vez criou esta expressão que eu nunca esquecerei: “homossexualidade é a arma mais terrível contra tudo o que havia à minha volta e com que eu não estava de acordo - chamasse-se ou não fascismo. Era uma atitude de revolta”, era uma boa maneira de escandalizar e provocar a sociedade portuguesa que era na altura conservadora e religiosa, não duvidem! Este Artur Cruzeiro Seixas, oh sim, um grande amigo e companheiro! Mas tudo isto se passou mais tarde…
Eu não me deixei ficar como ourives queria aprender, então contrariando os ideais do meu pai, frequentei um curso de habilitação às Belas-Artes. Mas felizmente não foi só, Fernando Lopes-Graça um grande compositor e para alguns um dos maiores do século em que mais vivi, o século XX, ensinou-me sem pedir nada em troca os seus dotes do piano, conheci os sons! Infelizmente estes meus momentos de pianista foram deixados para trás pois, novamente, o meu pai proibiu-me de recolher mais sabedoria deste grande mestre.
            No final da minha adolescência partilhei bons momentos com os meus amigos nos cafés de Lisboa, partilhando várias tertúlias e onde conheci o neo-realismo que não era nada mais nada menos que uma corrente artística onde tínhamos de tornar a verdade uma ficção para escaparmos da censura. Ainda nesta época da minha vida descobri o surrealismo! Um outro movimento artístico e literário, embora o neo-realismo incluísse outras áreas como o cinema. Depois destes bons anos, mais concretamente em mil novecentos e quarenta e sete, tinha eu vinte e quatro anos quando me dirigi à capital francesa, Paris, onde prossegui os meus estudos no número catorze na rua de la Grande Chaumière, Académie de la Grande Chaumière. Esta academia tinha uma grande reputação! Foi tanta a cultura que conquistei em Paris! O movimento surrealista francês entusiasmou-me de tal maneira que o quis levar para Portugal e foi nesta altura que criei o Grupo Surrealista de Lisboa com jovens companheiros como António Pedro, José Augusto França, Cândido Costa Pinto, Vespeira, Moniz Pereira e também Alexandre O´Neill. E foi assim que me afastei do movimento neo-realismo, trocando-o! As pessoas sempre me consideraram uma figura inquieta e questionadora, bem, na verdade sempre tiveram razão! Mudei de movimento num ápice, sem “olhar para trás”. Não foi totalmente verdade, escrevi “Nicolau Cansado Escritor”, repleto de ironia. Por um lado toda esta troca de movimentos fez despertar em mim um desejo de conhecer, experimentar! Desejo este que se foi reflectindo nas minhas obras, tais como colagens e pinturas. Utilizei processos como pinturas com tinta de água, e sabem? A precisão não foi para mim… Quando pintava aleatoriamente sentia que conseguia libertar melhor as minhas emoções! Que é, para mim, a maior finalidade da arte, podermos mostrar o que pensamos de uma maneira original. Também a poesia foi uma ocupação na minha vida. O que esteve na base de todas as minhas obras foi o desejo de conhecer sempre mais. Tenho de admitir, quando me iniciei tinha uma alma jovem e muita vontade, nem sempre consegui que esta minha jovem vontade fosse bem sucedida. No entanto, nunca baixei os braços…!
            Durante a minha vida fui publicando periodicamente no Jornal de Letras e Artes e Cadernos do Meio-Dia entre outros. Sempre a pensar nos movimentos! Mais tarde devido à maneira como tratavam o surrealismo, uma maneira não autêntica, eu saí do até então meu grupo e criei O Grupo Surrealista Dissidente com Pedro Oom e António Maria Lisboa!
            Esta mudança de grupo foi uma prova do meu espírito crítico, como alguns classificam as minhas obras. Sempre critiquei os detratores do surrealismo e também os que, na prática literária, o desvirtuavam. Como disse, era um crítico, porque como artista reflectia no que observava e daí nasceu Corpo Visível e Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano, sempre fui ironizando a realidade que observava diariamente. Fui criando arte reflectindo sempre na actualidade, pelo menos, na actualidade daqueles dias!
            Na década 1940 o meu pai trocou a minha família por uma amante no Brasil. A partir desse acontecimento da minha vida, aproximei-me mais da minha mãe e de Henriette, a minha irmã mais velha.
            E, quando não haviam facilidades na minha vida, a polícia atormentava-me e também me perseguia devido à minha homossexualidade. Envergonharam-me sem qualquer respeito! Porém, o vinte e cinco de Abril trouxe-me paz… Relativamente à polícia. O que escrevia não me sustentava e foi a minha família que me ajudou naqueles tempos difíceis até que em mil novecentos e sessenta decidi que a pintura iria ser a minha única via de rendimento. Vinte anos mais tarde, Manuel Hermínio Monteiro reeditou as minhas obras que tinha sido previamente editadas por Luiz Pacheco, de quem saudade não guardo! As minhas obras ganharam um outro público.
O fim aproximava-se, tinha sido diagnosticado com cancro da próstata e uns anos antes de morrer morei com a minha irmã mais velha, a qual ainda vi falecer, em mil novecentos e noventa e quatro.
            Nos últimos anos da minha vida recebi o Grande Prémio EDP de Artes Plásticas 2002 e mais tarde em dois mil e cinco recebi a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade que foi entregue por Jorge Sampaio; neste mesmo ano fui galardoado com o Grande Prémio da Vida Literária homenageando a minha contribuição para a literatura portuguesa.
            Às dezassete e trinta, do tricentésimo trigésimo dia do décimo primeiro mês do ano de dois mil e seis, faleci! Após anos a tentar vencer o cancro… No meu testamento disse que queria doar um milhão de euros à Casa Pia e em vida doei o meu espólio à Fundação Cupertino de Miranda.

domingo, 1 de maio de 2011

Dia da Mãe *

 A todas as mães, em especial à minha!

O Dia da Mãe é tipicamente conhecido por poemas, flores, prendas, pequeno-almoço na cama, abraços e beijinhos! Mas este ano quis torná-lo diferente, ainda mais especial!

Este dia acaba por ser uma oportunidade para agradecer às nossas mães tudo o que fizeram por nós! Desde o nascimento até hoje!
Não vais ser só mais um dia, nem mais um abraço, hoje é o dia em que falo de todo o trabalho que já tiveste, das noites mal dormidas, das conversas menos alegres, das dificuldades e problemas, situações que já ultrapassamos juntas, mas não só...! Falamos sobre onde isso nos levou, às coisas boas! Hoje falamos das viagens em família, dos serões, das piadas e gargalhadas, do processo nunca completo da minha aprendizagem, dos prémios, das apresentações a que assististe, das gotas de suor por cada segundo de trabalho, da felicidade!

Hoje é o dia em que celebramos a tua felicidade!

PARABÉNS POR SERES TÃO MÃE,
Ritinha!

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Agente duplo

Olá! O meu nome é Real Virtual. A minha família e os meus amigos conhecem-me por Real, já para a malta dos chats e dos jogos na Internet, sou simplesmente o Virtual. Como real, sou pequeno, moreno, tímido, mas como Virtual faço de conta que sou alto, bonito para poder falar com as outras pessoas e elas tenham algum interesse por mim! Já me disseram que se eu me "mascaro" quem está do outro lado também se pode "mascarar" de maneira inocente ou não... Portanto, não devo dar-me a conhecer a quem não conheço!! Também já me ensinaram que se marcasse algum encontro (o que nunca devo fazer), deveria ser num local público e deveria estar sempre acompanhado! Eu como Real não quero fazer mal a ninguém, nem como Virtual. Acho que não vou mentir mais na Internet, mas também não vou dar informações sobre mim porque não quero magoar-me a mim nem a entes queridos. Antes do dia de hoje eu não passava de uma invenção, hoje depois de saber o que me podia acontecer, serei para a minha família e os meus amigos o Real e para a malta dos chats e dos jogos na Internet, sou, exclusivamente, Real Codificado!
2010

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Atmosfera primitiva contada a pequenos

- Ouvi na minha aula de Química e achei melhor verificar... não sei se a tua professora também vos disse, mas eu quis ter a certeza - não vá ela enganar-me, não é verdade Zé? Então depois das aulas fui ao empreiteiro, aquele lá da esquina, o que também é electricista!
- Já estou a ver! Mas diz lá...
- Então, quando lá cheguei pedi uma máquina do tempo! E, não é, que ele se riu? Olha, mas que anormal!
- Ah! Ah! Ah!
- Tu também Zé?
- Não, não! Diz lá!
- Bem, lá o convenci a fazer-me uma, mas exigi que fosse vermelha e ele deu-ma!
- Como era?
- Vermelha Zé!
- Oh! Está bem! Mas afinal o que querias descobrir?
- Calma, tudo com calma! Sentei-me ao volante...
- Era como um carro?!
- Não, como uma trotinete! Claro, Zé, se ia viajar no Tempo ia como queria!
- Ah!
- Então pus no destino - ANO DOS DINOSSAUROS! E parei mesmo LÁ...
- UAU!
- Eu não confiei muito no empreiteiro que também é electricista, mas afinal!! Fui lá e perguntei a um dinossauro-professor: "qual é a constituição da atmosfera de agora?" e ele quase que me comia as pernas...! Não devia falar português! Depois fui a uma professora e expliquei-lhe a minha situação - queria ver se a professora de química estava certa!
- E estava?
- Respondeu-me H2O, CO2, N2, CH4 e NH3.
- Ah?!
- Também fiquei assim e ela ajudou-me a perceber! Disse que o H2O é o vapor de água, CO2 é o dióxido de carbono, N2 o azoto, CH4 é o metano e NH3 é o amoníaco! Tal e qual a professora de química lá da escola!
- Tó, a professora fez a viagem primeiro que tu!
- Parece que sim....!
O Tó fica triste e o Zé a rir-se!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Imaginação leva-me para...

Imaginação leva-me para ali
O ali, transporta-me para aqui
E depois de alguém me sugar para além
A minha mente desvanecia-se por aí!

O meu sonho leva-me aqui
Onde não há derrames de destinos
Onde nos podemos cingir a viver
Respirar e nada mais

Há aquele Universo alternativo
Em que se vê os futuros e os laços criados
Naquele céu que só tu olhas
Aquela nascente que só tu tens

Os meus olhos, mais reais
Contradizem a imaginação
Mostram-me a marginalidade
E as dificuldades...

Em cooperação,
Os meus olhos e a minha imaginação
Mostram as dificuldades, os becos
E as saídas, e só assim consegues ser mais do que nada!

E não paramos com esta roda viva,
Onde imaginamos de dia e de noite
E onde os nossos olhos cruelmente
Nos trazem apenas para este lado!

E nunca, te deixes ficar
Meramente pelos teus olhos
Jamais, jamais te deixes ficar
Apenas pelos teus olhos

Felicita-te, e ouve o que vem de dentro de ti!
A imaginação, imaginação essa que liga
Ali, aqui, além e vaqueias, permanentemente, por aí!
2009/2010

Tenho uma janela...

Tenho uma janela
Que dá para ti
Futuro inovador
Alma sonhadora

Tenho uma janela
Que dá para ti
Asa voante
Sonho paradísiaco

Tenho uma janela
Que dá para ti
Chama do futuro
Fósforo do presente

Tenho uma janela
Que dá para ti
Tens uma janela
Que dá para mim?

Março, 2009

Camões, Luis Vaz de Camões

       Meus contemporâneos, escritores do futuro:

       Eu, Luís Vaz de Camões nasci, ora, não me lembro bem onde mas... oh! sim, deve ser isso, Lisboa! E a data? Por volta de 1524, quase que podia jurar! Estou mesmo esquecido, que embaraço... hoje é dia 10 de Junho de 1580, imagino que no futuro saibam que eu hoje não estou muito bem!
       Bom, esta carta pode ser a última que eu escrevo e, pelo que leio, uma carta bastante diferente das minhas usuais cartas. Vou desabafar o que ando a sentir, como me andam a tratar depois de tudo o que eu fiz. Eu digo-vos, posso, não posso?
       Então foi assim: depois de eu ter estudado Humanidades no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, oh! que bons tempos!... e depois de ter ido para a Índia, bem, eu sei, eu sei, que a razão porque lá fui não foi exactamente a melhor - uma rixa... Que fui eu fazer? Pronto, mas ainda bem! Acabei por viver em Goa e escrever algumas coisas até que, em 1569, voltei a Portugal, onde escrevi uma obra que ninguém, ou pelo menos, poucos lhe dão valor, peço-vos: leiam-na! "Os Lusíadas" dedicada a D. Sebastião. Depois de "Os Lusíadas", "El- Rei Seleuco", "Auto de Filodemo", "Anfitriões" e "Rimas" estou eu aqui, pobre, doente, esperando a morte sem reconhecimento, sem justiça! Eu, EU, Luís Vaz de Camões, o pobre, o doente? Não! O POETA!
       Espero que vós, gentes do futuro, sejais mais reconhecedores e que a arte não morra pobre e doente, como eu, que pouco mais estarei neste Mundo, neste país que não me apoiou...

Boa arte, sorte, vida e obras, sejam grandes, sejam Portugueses, sejam reconhecidos e reconhecidores,
Luís Vaz de Camões, o Poeta